1991 – O ano que partimos
A história dos documentários sobre migrações começou em 1991. Uma viagem ao Japão, seis meses lixando 326 carros por dia numa jornada de 10,5 horas alternando semanalmente o dia e a noite. Nos 6 meses de estadia em Kyoto apenas duas palavras trocadas com o japonês da minha frente. Garotos e velhos japoneses e brasileiros trabalhando toda madrugada animados por um pop japonês.
Nossa sacanagem sobrava pro chefe que era obrigado a ficar lixando nossas falhas até entregar todos os carros pedidos do dia. Certa vez ele nos levou, eu e outro brasileiro do setor, para um passeio num templo isolado na montanha. Era um lugar enorme e vazio. Um templo ao centro. Nos sentimos muito bem e conversando com ele entendemos o que era ser um trabalhador japonês. Há 20 anos ele estava no mesmo lugar. O japonês da minha frente estava a 18.
Por várias vezes tentei descobrir onde era aquele lugar mas nunca mais achei. As fotos que lá tirei foram detonadas mas esta é outra história.
Depois de pagar a dívida da viagem de U$ 4.000,00 e quase louco enfim tive liberdade. Liberdade para me enfiar em outras fábricas, catar lixo ou fazer outros bicos entre Kyoto, Tokyo, Karuizawa e Hiroshima.
Mais de um ano depois voltei com um material gravado pela câmera S-VHS de segunda mão que comprei. Nada aproveitável mas este foi o início. 1991 o ano que partimos…
De lá pra cá de cá pra lá
No início de 2007 minha prima retornou do Japão para uma estadia de 6 meses no Brasil trazendo sua filha de 8 e seu filho de 3 anos. Seu marido de nacionalidade peruana com quem se casara uns 10 anos atrás não pode vir e permaneceu trabalhando.
A intenção da volta era estar próxima a mãe após a morte do pai e também dos filhos terem contato com a língua portuguesa reforçando o idioma usada por ela com eles.
Ela é formada em Física na USP e no Japão ela é dona de casa.
Em junho de 2007 resolvi “perseguir” sua filha num dia de aula e para minha surpresa encontrei na escola mais 3 crianças com a mesma experiência de ter vivido alguns anos no Japão. Gentilmente a escola como os pais permitiram eu registrar alguns dias deste ano.
Crianças. Sob o tema migrações este é muito delicado senão o mais complexo.
Só para pensar: a criança que estava a 5 anos aqui tentando se adaptar acaba de retornar as pressas ao Japão levada pela avó.
Numa primeira pesquisa nas escolas públicas já pude notar o surgimento de outras questões paralelas que deve engrossar a fila de novos problemas.
Vou colocar um trecho inicial e espero que possamos continuar trocando informações.