Tinturaria

por Helio Ishii

Mina e Lisa – Comentário Laura Ueno

Conheci Laura Ueno por conta de um seminário que ela estava organizando com pessoas que haviam retornado do Japão. Ela precisava de material audiovisual sobre esse tema e assim chegou até os documentários que fiz. Estou colocando seu comentário sobre Mina e Lisa porque queria compartilhar com vocês a opinião dela. Acho também que essa ponte com a acadêmica não só articulando os assuntos mas também exibindo as obras e discutindo e retornando outra vez à gente um bom exercício de troca.

Com vocês então Laura.

 

Sou psicóloga clínica e faço parte da equipe de Orientação Intercultural do Instituto de Psicologia da USP. Morei no Japão, uma vez trabalhando e numa segunda vez como pesquisadora na Universidade Tohoku, em Sendai. Minha família é de uma comunidade nikkey no interior de SP, e vim sozinha na adolescência para a capital.

Desde que comecei a fazer a pesquisa de mestrado sobre esse tema da migração BR-JP, tenho prestado mais atenção no que as pessoas em geral falam, por exemplo, sobre o que é ser nikkey (descendente de japonês). Também no modo como no dia-a-dia as pessoas não-nikkeys se referem a mim, como oriental. Como somos exóticos ainda no Brasil…
Então, é muito bom e importante poder se ver numa tela, numa história. Seriados com personagens e famílias nikkeys retratando questões que são, ao mesmo tempo, singulares dessa cultura e também gerais de todo ser humano, são uma iniciativa necessária.
Acho que muita gente passou por aquele momento do último episodio(capítulo 15): os pais comunicando tão de repente que vão para o Japão. Com poucas palavras, pouco tempo para se sofrer ou expressar dor e raiva.
Alguns estudos que tenho lido apontam que a reação desses jovens à viagem dos pais sofre forte influência cultural japonesa. Há dificuldade em expressar os sentimentos e o sofrimento causados pela separação, encarando-se a mudança com resignação, conformação, ambigüidade.
Foi interessante a seqüência dos episódios: da dupla de amigas e suas conversas íntimas, para o olhar sobre os candidatos (que fazem parte mais do lado de fora, o mundo e suas possibilidades). Para então se chegar à família de Mina e sua partida.
Nossa, agora se abriram mais questões, enriquecendo a história. Pensei: “Por que ela precisa transar?” E o que transar com qualquer um dos candidatos representará nesse momento em que ela está `abandonada´. Aliás, muito criativo e hilário a parte das entrevistas com os candidatos.
Estava achando a dupla de adolescentes muito fúteis e alienadas, mas depois percebi que há bem pouco tempo atrás vivi e me vi diante das mesmas dúvidas existenciais que elas… (isso porque já não sou adolescente há muito tempo!)

Mas gostaria de ver também essa dupla crescendo: as meninas sofrendo, pensando, ganhando confiança e autonomia. Como as quatro amigas do seriado americano `Sex and the city´. Afirmação é algo que nós mulheres nikkeys precisamos enxergar em nós mesmas (pois convivemos com a herança de uma cultura de delicadeza e passividade feminina). E é bacana quando olhamos para a tela e vemos que há um caminho possível.
Em `Permanência´, é algo vibrante ver a vitória de alguns jovens que se deram após tantas dificuldades no Japão. Traz esperança e isso é algo mais que terapêutico em certos momentos.
Que bacana o seu trabalho e a coragem de vocês todos envolvidos nessas produções. Eu estou num projeto de uma peça sobre BR-JP e nos encontramos nesse momento na batalha por mais atores e patrocínio. Então sei como é difícil. Mas acho que é uma loucura mais que saudável ir atrás de um sonho/projeto e realizá-lo.

Abraços,
Laura

Janeiro 7, 2008 Publicado por Helio Ishii | Mina e Lisa | , , , , , | 7 Comentários