Cloaca foi um documentário realizado no meio e pelo conflito. Interno e externo. É difícil ter uma posição clara do papel do realizador quando se aborda o tema da miséria, tão caro no Brasil. Fazer filmes com essa temática pra que? O que poderíamos trazer de novo? Sobre esta questão da produção cultural “engajada” ler o texto “Cultura e Política” de Roberto Schwarz foi muito interessante para mim. Ele é de 1968 e ainda muito atual. Aponta para uma aparente contradição: no Brasil da ditadura havia uma relativamente hegemonia cultural da esquerda, um mercado crescente de produção e de auto consumo da classe média sobre os assuntos pautados pela própria classe média de esquerda. Voltando ao documentário, fizemos uma exibição aos participantes do É de Lei , Ong que reúne pessoas em situação de risco no centro de São Paulo. Queríamos incluir na versão final a opiniões deles sobre o documentário. Um deles disse ”documentário é legal mas a realidade está ai pra todo mundo ver. Serve pra que?”
Acho interessante que de alguma maneira eles comecem a questionar essa importância dada ao audiovisual e as verdades que eles revelam. Aliás acho que esse questionamento é geral. Veio dai a idéia de retirar as identificações das pessoas que vão surgindo ao longo do nosso filme. Desconfortável para que assiste, sem dúvida, mas uma reproduz nosso cotidiano de encontros com pessoas sem legendas. Que critério temos para olhar cada uma dessas pessoas?
