Identidade, uma discussão eterna?

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Mais uma oportunidade para o debate. É sempre interessante. Mas como remédios que tem diferentes apresentações (comprimido, líquido, spray…)  as discussões sobre migrações parecem formas diferentes de tratar da mesma coisa. A identidade.

A discussão sobre identidade no Brasil é permanente. E não se restringe aos nipo-brasileiros. Diferenças culturais, a construção da identidade, os estereótipos, a cara do dekassegui, a cara do emigrante, a cara da primeira segunda terceira geraç…gastamos boa parte da vida discutimos quem somos nós.  Tenho noção de que a questão é importante, ainda mais num mundo onde o outro se apresenta como o avesso do avesso de nós. Mas também concordo com a antopóloga Lilian Schwartz que diz que isso é uma coisa do Brasil. Sim, é humano se perguntar quem sou eu mas é made in Brasil perguntar o tempo todo quem eu não sou?

Fui à Escola do Parlamento exibir um trecho do documentário das crianças brasileiras retornadas do Japão. Um filme é sempre um recorte de uma realidade. Lembro como se fosse hoje do lançamento do documentário “Cartas” em 2004 em que vários japonese e nipo-brasileiros sentados na platéia da Fundação Japão me acusaram de ingratidão por fazer um filme que “falava mal” do Japão, país do qual todos nós descendíamos e que naquele momento acolhia os nipo-brasileiros interessados em trabalhar em suas fábricas,  pagando além de tudo ótimos salários.

Como são cegos, pensavamos nós reciprocamente. Os jornalistas convidados para o debate também faziam seus recortes numa versão científica da teologia da prosperidade. Catavam alguns exemplos de sucesso para exemplificar as possibilidades que o país dos nossos avós nos oferecia.

Enfim, como o documentário mostrava os sonhos dilacerados de 4 mulheres que tentaram a sorte no Japão dos anos 90, o mal-estar se estalou naquela platéia.

Por anos essa intuição do falso “paraíso na terra” girou na minha cabeça e como uma uma consulta médica em busca de uma segunda opinião fiz um segundo documentário. Sobre os jovens que cresceram no Japão. Embora eu tivesse morado por lá durante 2 anos achei que era preciso ouvir os caras que estavam no meio do tiroteio. Fui conversar com eles in loco. Minha crença era de que era impossível apreender os detalhes da sociedade japonesas passando alguns dias ou meses por lá.

Lancei o segundo documentário “Permanência” em 2006 sobre estes filhos que chegaram as universidades, alguns em instituições de prestígio até para os próprios japoneses. A repercussão foi grande, sobretudo, no Japão pois revelava o sentimento de incompletude e deslocamento desses “estrangeiros” perfeitamente adaptados.

A crise econômica de 2008 explicitou nunca como são vistos os estrangeiros na terra do sol nascente. Pelo menos para os trabalhadores braçais a providências tomadas pelo governo japonês foi didática. Dos 300 mil brasileiros 1/3 retornou ao Brasil. Uns 20 mil com passagem dada pelo governo japonês, porém, com o impedimento de retornarem pelo prazo mínimo de 3 anos. Alguns anos atrás fizemos um documentário no centro da cidade de São Paulo e algumas pessoas diziam que a solução para os moradores de rua era de enfiá-las no onibus e despachá-las para suas cidades de origem. É uma ideia universal. A lógica da mercadoria. Queridos quando convém, descartáveis quando inúteis.

É claro que a opinião dos discípulos do santo nipônico não mudaram. Continuam a achar que como filhos nobre temos sempre o dever de atender ao chamado do pai. É até bonito por certos aspectos mas ilusório.

O retorno para muitos foi marcado pela desilusão, pelo sentimento de traição e fim de uma narrativa e de uma sacralidade. O abandonados à própria sorte em momento difícil da vida disparou um outro sentimento em relação ao Japão que desconhecemos ainda a extensão dessas consequências.

Voltando ao ponto da identidade há no encontro do Brasil e do Japão  uma coisa interessante.  As diferenças entre os dois paises e suas culturas muito se falou. As oposições do comportamento, da expressividade, pensamento… Mas haverá algum ponto em que os dois povos se assemelham?

É apenas uma outra intuição mas acho que ambos os povos tem uma dificuldade de expressão dos verdadeiros sentimentos. Existe um silêncio explícito ou dissimulado mas  um silêncio que por vezes os amadores interpretem erroneamente pelo seu contrário daquilo que quer dizer. Não há uma fala direta, explicita daquele que fala. Mal interpretado pode confundir o interlocutor em relação a distância que se coloca entre ambos, mais próximo ou mais distânte do que quem fala quer realmente.

No Brasil se fala muito mas pouco se diz. Brasileiro é safo e confunde pacas. É preciso ter uma inteligência íntima para compreender e circular com desenvoltura para ser íntimo sem intimidade. A arte do calor humano que facilmente confunde os desprevenidos. A conversa com a empregada, com o garçom, com o vigia, com os colegas de trabalho, com o chefe deve ser íntima para borrar o limite, a distância e o conflito implícito. Tentamos ser “parças” ou “manos” numa outra dimensão porque a realidade é muito violenta.

No Japão o silêncio é explicito. Se diz pouco porque tudo está subentendido e compartilhado. Se somos todos nobres então não precisamos falar nada. Se você está fora então também não adianta falar porque você não entenderia. Sabemos qual o sentido virtuoso das ações. Entre os descendentes de japoneses mantemos o Yamato Damashii, o espírito japonês mais nobre, porque corre nas veias o sangue azul nobre. No silêncio e do silêncio saberemos quem somos. Até que um dia um babaca abre a boca e pergunta o por que não se concede a nobreza paupável, ou seja, a nacionalidade japonesas, aos filhos e netos dos emigrantes japoneses que vivem fora e no Japão, assim como fazem os italianos, alemães e outros países que seguem a lei do sangue, Jus sanguis? Nessa hora a nobreza mais nobre vai para o ralo.

A discussão sobre identidade nos dias pares, artisticamente, ela não me move ou comovem. Mas nos ímpares acho o que são importantíssimas. E assim seguimos.

 

 

 

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Sobre Helio Ishii

Helio Ishii - Diretor, roteirista, produtor e editor.

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